Escrever, Transformar & Ser Vol.2 Cap.IX

Escrever e/ou falar sobre o passado é sempre uma grande fonte das mais variadas emoções, pois recordamos tudo o que foi vivido, independentemente da sua carga mais ou menos positiva, lembramo-nos de cada vivência e, se não houve nenhuma reflexão/ação em relação a cada vivência, certamente estas recordações serão fonte de dor, arrependimento, frustração e é sinal que continua a minar o nosso presente, por ainda vivermos agrilhoados a esse passado.

Antes de apresentar alguns exercícios de Escrita Terapêutica que possam ajudar a trabalhar algumas questões sobre o nosso passado, gostaria que cada um de vós refletisse sobre estas duas questões “Quais são as memórias do meu passado?”, “O que sinto ao reviver cada uma das minhas memórias?”. Durante esta reflexão, devem ir a anotando essas mesmas memórias, sejam elas quais forem, associando às emoções que cada memória evoca e que possam surgir livremente, porém sem fazer quaisquer juízos de valor, sem racionalizar em demasia, deixando cada emoção fluir livremente, pois são essas mesmas emoções que precisam ser trabalhadas.

O primeiro passo, utilizando a escrita terapêutica e tendo em conta as anotações que foram criadas aquando as reflexões sobre as duas questões colocadas, é a criação da Lista de memórias menos positivas onde se irá anotar na primeira coluna “Quais as memórias e vivências do passado que consideramos menos positivas ou mesmo negativas”, na segunda coluna “Quais as emoções e sentimentos relacionados com cada memória”, na terceira coluna “Quais as pessoas que estão relacionadas com essas memórias” e na quarta coluna “Qual o trabalho feito ao longo do tempo para alterar as emoções dessa memória”. Certamente terão alguma facilidade em preencher as últimas três colunas e poderão ter mais dificuldade em reconhecer o trabalho que foram fazendo (sendo grandes juízes de vocês mesmos) ou até identificar que nunca mais voltaram a essa memória, com medo de sentir algo. 

De seguida, de modo a conseguirmos compreender o porquê de não conseguirmos reconhecer a alegria em nós mesmos, sem que seja necessária a presença do Outro, podemos criar a Lista das memórias positivas onde de uma forma similar à Lista de memórias menos positivas”, onde vamos identificar quais as memórias positivas do nosso passado, quais as emoções que sentimos ao recordarmos cada uma delas, quais as pessoas associadas a essas memórias e o que foi feito no sentido de reconhecer o que foi feito em relação a essas mesmas memórias. 

Tendo em consta as listas que foram elaboradas anteriormente (cada um terá o seu próprio ritmo, não havendo um tempo definido para fazer a lista, pois poderá ser feita continuamente, consoante nos formos lembrando das memórias), podemos avançar para a elaboração da Carta ao meu Passado ou seja, a escrita de uma carta onde conversamos connosco mesmos, com a pessoa que fomos, utilizando cada memória registada nas listas de memórias, escrevendo a nós mesmos como nos sentimos ao viver aquelas situações, como nos sentíamos naquele tempo. Ao mesmo tempo, nesta carta podemos deixar uma mensagem ao nosso passado, reiterando como nos sentimos hoje ao revisitá-lo, como nos sentimos ao recordar tantas e tão vastas vivências.

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Para escrever a Carta ao meu Passado, podemos começar a elaborar a carta da seguinte forma: “Meu querido Passado, escrevo-te esta carta porque quero dizer-te o seguinte (…), pois recordei cada vivência quer as que me magoaram quer as que me fizeram sorrir (…), por isso quero que saibas que quando vivi aquelas situações senti-me (…), porém hoje ao escrever esta carta sinto-me (…). Esta carta é uma ferramenta muito importante para cada um de nós, pois poderá ajudar-nos a lidar com situações que pensávamos que já estavam resolvidas, podem ajudar a reconhecer o trabalho que fomos fazendo no sentido de perdoar ou valorizar as vivências do passado (consoante for o caso) e pode até ajudar a reconhecer quais as pessoas do nosso passado que ainda hoje nos afetam seja de forma menos ou mais positiva.

A elaboração destas listas de memórias e desta carta poderão trazer à tona situações que julgávamos esquecidas, mas se assim acontecer é porque ainda temos que as resolver, é porque ainda há feridas abertas que nunca cicatrizaram, é porque há pessoas que ainda anão perdoamos, tal como pessoas de que não nos despedimos. É uma ferramenta terapêutica muito útil para podermos trabalhar o que há a trabalhar, para podermos viver o nosso presente em consciência, reconhecendo que o passado foi uma parte da escola da vida, onde aprendemos muito, sendo necessário reviver o mesmo para contemplar as mais diversas aprendizagens.

Por isso, caros leitores comecem hoje mesmo a viagem ao vosso passado, sem grandes pressas, pois por vezes para seguir em frente no nosso caminho de vida, precisamos ficar algum tempo nos locais (neste caso vivências) que fizeram parte da nossa Vida e causaram as mais diversas emoções, para encerrar ciclos, para seguir em frente sem qualquer grilhão do passado e sem sentir a dor que podemos ainda sentir, apenas porque temos medo de ir visitar os locais onde não fomos felizes, esquecendo que essa mesma viagem nos vai levar aos locais onde fomos felizes e que precisamos valorizar e agradecer.


Ricardo Fonseca

Facebook: Ricardo Fonseca – Escritor

www.semearemocoes.com

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